| "Sertanejo" do litoral (Foto: Claudimar Silva) |
Icapuí não é todo mar. Fora dasmolduras que enfeitam nossos cenários naturais - jangadas e seus jangadeiros,praias místicas e falésias estonteantes, “rimas, de ventos e velas” e “terrasde verdes coqueiros” – existe um “Icapuí sertanejo”. Um mundo paralelo ao nossourbanizado litoral, habitado por homens e mulheres que seguem uma vida longe domar, mas tão rica de histórias e desafios quanto às vidas banhadas pelo oceano.
Encontramos nas extensas áreas menos habitadas de nossa cidade, as mesmasimagens de um Nordeste seco, de vida sofrida, daquele jeito que fomosacostumados a imaginar o Nordeste. Mas, também é possível ver riquezasescondidas por trás da aparente sofreguidão diária daqueles que são, antes detudo, trabalhadores, guerreiros, heróis.
Abraçados pelo cinza da florestade “catingueiras”, pequenos roçados dão conta de abrigar plantações das maisvariadas frutas, da criação de rebanhos e aves, que servem tanto para o consumoda família quanto para o escambo. Desses pedaços de chão nas brenhas que noscercam, agricultores sustentam uma vida herdada dos pais, dos avós, da vidasertaneja que o escolheu. Herdaram junto com o solo, a força e a vontade detocar a lida pesada do dia-a-dia, do sol-a-sol da vida de um legítimonordestino.
Há uma beleza cultural em tudoisso que os “praianos” deixam passar despercebido. Essa vida sertaneja divideespaço inclusive por estas bandas, banhadas pelo mar. Existem roçados no meioda urbanidade, às margens das avenidas retilíneas, nos quintais improvisadosque germinam alimentos e vivências. É comum ver senhores capinando a terra, preparandoas covas que receberão sementes de uma agricultura familiar individual. É comumvermos rebanhos inteiros criados soltos sobre as dunas, degustando as deliciosasguloseimas da vegetação costeira. Plantar e criar são atribuições de braços fortes e mãos marcadasde calos provocados pelo cabo da enxada. No rosto, o rastro do suor fervidopela quentura do sol denotam o esforço feito para que a terra dê os frutos essenciaisà vida: alimento e trabalho.
Para ser um sertanejo de verdadeé preciso reclamar da falta de água. E nossos sertanejos reclamamcom razão. Se em nossa confortável zona urbana, um dia apenas sem água natorneira é motivo de indignação e revolta popular, no “sertão” a água e suaescassez são da mesma sina de todo e qualquer sertanejo. Abastecer tambores comágua carregada em “calões” crucificados nos ombros faz parte da rotina dessapopulação. Cada gota desse líquido tem destino meticulosamente definido ecompreendido por todos que dela fazem uso. No sertão, em qualquer sertão, águaé ouro. Nesses tempos de modernidade eajuda governamental, cisternas de concreto chegaram aos terreiros de muitossertanejos. Lá, despeja-se água colhida das chuvas através de bicas instaladasnos beirais da casa. Armazena-se nesses reservatórios o líquido e a esperançade um povo cismado com a “seca” – a seca que cessa a vida no mar ou no sertão.
Além do mar imenso que nos dar,ou nos deu, tantas riquezas, temos um “sertão particular” que é imensamentefarto também. Ambos possuem tesouros culturais, históricos e naturais que dãoao nosso município um grande leque de oportunidades de exploração sustentável dessasáreas, capazes de gerar emprego e renda. Basta lembrar que nossa cidade é um grande exportador de melão (evidentemente os grandes produtores aqui instalados não secomparam com nosso sertanejo e suas limitações, mas a terra é a mesma).
As dificuldades existem, não importando se estamos no mar ou no sertão, porém, incentivos e investimentos nas potencialidades de nossa terra podem transformar nosso “sertão” em um novo mar, já que o nosso mar corre o risco de virar um sertão daqueles brabos, seco, improdutivo - restando apenas a beleza que emoldurará cartões-postais mundo afora.
Claudimar,
ResponderExcluirParabéns pelas Crônicas que tens feito! É preciso muita SENSIBILIDADE para enxergar o poucos conseguem ver.
Seus Artigos são na verdade verdadeiras POESIAS.
Opa!
ResponderExcluirObrigado pelos elogios. Continue visitando nosso blog.
Abraços!