Artigo: QUANDO NÃO SE PODE MAIS PESCAR (Crônica)

Escrito por Antônio José 
Professor

Ainda era uma criança como um pássaro quando está ensaiandoasas para voar. Um dia, abro a porta de minha casa de taipa fincada sobre ummorro de areia escura e rodeada de salsas. Casa coberta ainda de palhas decoqueiro como costumava ser as cobertas de antigamente numa praia depescadores, mas com belezas naturais e estonteantes. Olha só o que vi! O mar aminha frente. Sim, o mar beijado pelo sol e recheado de pedras e barcos que meconvidavam a sair correndo sem pedir licença, sem pedir... Não me contive eatendi aquele convite da mãe natureza, corri, desci o morro como quem disputauma maratona querendo chegar o mais rápido possível na linha de chegada.

Naquele momento, piso na água fria e sinto a leveza da espumae o movimento da marola que as ondas me ofereciam num frenesim inesquecível.Estava dentro do mar e como filho de pescador ainda não sabia se iria seguir omesmo ofício de meu pai, de meus tios, de meus conterrâneos. Não, não sabia,mas sabia que o mar havia me fascinado e queria um barquinho para nele flutuarnas águas frias e salgadas. Não demorou muito para eu conseguir o que queria, pois logo improvisei um pequeno barco com pedaços de tábuas e isopor. Acabara deconstruir o que ainda hoje chamamos de catraia.

 
Com esse simples barquinho, um navio, um iate para ummenino cheio de sonhos que com ele iria se deliciar no oceano tão perto desua casa, apenas alguns passos, o mundo de criança assumia o seu verdadeirosentido: a alegria de ser infante.   

O tempo foi passando e aquele menino foi crescendo e logocomeçou a estudar, pois a sua mãe dizia sempre: “não tenho nada para deixar avocês a não ser o estudo, o saber” De tanto ouvi isso de minha mãe logocompreendi que não existe riqueza maior que um pai ou uma mãe pode deixar paraum filho do que a educação. Mesmo estudando, continuava nas horas livrescorrendo para o mar e me perdendo sobre aquele barquinho na imensidão dooceano. Pegava o remo e entre as pedras nuas da costa litorânea jogava umalinha de vara e já pescava o peixe de comer. Queria passar o dia fazendo aquilo,mas o horário da escola não deixava, tinha que estudar, era necessário.

E assim fui crescendo, terminei o 1º grau, paralelo aoestudo já trabalha remendando redes de pesca, vendendo como ambulante, masnunca esquecia ou perdia a vontade de entrar no mar e desfrutar de momentos dealegria e prazer. Até que um dia recebo o convite para ensinar na minhacomunidade, faltavam professores e alguém entendeu ser o meu desempenho escolarum fator preponderante para que eu exercesse tal ofício. Confesso que nuncapensei em me tornar professor, não escolhi essa profissão, alguém a escolheupara mim, mas descobri no exercício do magistério a realização de um sonho nãosonhado.
 
Formei-me e continuo até hoje ajudando crianças e jovens atirarem as vendas dos olhos e aprendendo com eles que a vida é um eternoaprendizado. Enquanto tudo isso acontecia, o mar não me saia da mente e docoração a ponto de investir em armadilhas de pesca, em um barco maior, motor esair muitas vezes nas madrugadas sem horas para voltar. Sim, porque o pescadorvai para o mar, mas não sabe o que irá lhe suceder. A certeza é da saída, porémnão há certeza quanto à volta. Pescava porque gostava, porque o mar é umfascínio, porque encanta e desencanta mistérios inexplicáveis e indescritíveis.
 
Enquanto me deliciava nas águas profundas do oceano, tentavame proteger ao máximo do sol escaldante, usando protetor solar de fator 50 atéporque estava cônscio dos perigos do sol e por ser de uma família suscetível aproblemas de pele.  Além do protetorusava camisas enrolando o rosto, blusas de mangas compridas e calças compridasparecendo-me um habitante polar. Mas tudo aquilo não era por causa do frio e,sim, dos raios ultravioletas do sol. Embora tenha tido tamanha precaução, um diacomeço a perceber manchas avermelhadas no meu rosto e logo procuro umdermatologista que me diz: “Você está pegando muito sol, tem a pele muitosensível e deve se proteger ao máximo, tenha mais cuidado” Naquela hora faleipara mim mesmo: “Sim, doutor, já entendi nas entrelinhas de suas palavras, nãodevo mais pescar é isso que o senhor está me dizendo, não devo mais pescar”. 
Desde então não pesquei mais, vendi o meu barco, motor eagora só me resta olhar para o mar e dizer ainda te amo, não te deixarei parasempre, pois és a minha inspiração, meu cartão postal de todas as horas e motivo de alegria em momentos de tristezae angústia. Hoje mesmo te olhava e dizia: “Quando não se pode mais pescar”..
 

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